segunda-feira, 13 de julho de 2015

Cerúleo




Era o vento soprando as nuvens,
o ar crescendo na altitude;
pensamentos de algodão.

Este céu em infinitude,
no pensar da vastidão que há dentro
no ato de descrever, de transcrever o simbólico.
E as imagens, antes de se tornarem turvas,
ser necessário alimentar consigo
tal qual esse jogo poético,
sobre a visão das coisas, nas formas do abstrato.

Desfazendo o nó da garganta:
rugir no ar.
Nesta caverna imensa,
nesta passagem tão simples,
de tudo menos banal.






sábado, 7 de março de 2015

Ínterim


Foto: Bárbara Vieira 




Saber-se inteiro, o amor
Em meio às dosagens
Ante a urgente necessidade
Entre prioridades e transformações

Emudeceu-me pelo fio do tempo
Os lábios sonolentos do amanhecer
A quem se entrega esperanças
Junto a um coração tranquilo

Adormecendo nos braços da saudade
O curto intervalo de encontro e despedida
Voltando às coisas nossas
A essas vidas que se querem companhias.




sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Vital

Não há chances de parar
O abrir do dia
paralisar o momento da curva do sol
nestes entre-mundos
entre luz e sombra
as incertezas vagueiam como folhas ao vento
e ainda aqui estão os sonhos
despertos para a manhã
tão longe dos caminhos traçados
tão perto de chegar
e a espera não resiste
nas palavras vazias
nos ocos potes
que reduz-se ao nada
morre e desfaz nesta atividade da vida
quando se retira a vitalidade
e a matéria retorna à sua primária condição
disforme
inerte e mineralizada, como pedras silicatadas
ou pedras avermelhadas, cor de ferro
mas, se ainda existe a vida
este elemento vital, que cresce
que pode ser podado, mas retorna a brotar
e ainda, como o sangue nas veias
aquecido pelo fogo oculto
da experiência do sentido
no mistério da vida
recorro a mim mesma
para o inexplicável da existência
deste imponderável
que é o tempo e a vida,
das coisas vivas.
e não se reduzem às vontades
estes organismos complexos
que se auto recriam instante a instante
para a vida que rodeia
o importante e o real.
mas, para ela
nem mesmo a morte
nem mesmo ignorá-la.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Toccata et fugue







Nada muda.
Nem as estações, nem os ciclos, ou os dias.
Tudo permanecerá igual,
Em sua novidade.
São os anos em que chove demasiado,...
ou as secas prolongadas...
Mas inda estão lá:
as estações, os ciclos, ou os dias.
E há o instante,
eterno instante!
Neste segundo de areia em ampulheta,
Grão a grão.
Onde num momento fotográfico,
mora o eterno.
Aprisionado tempo!
Que não volta mais.
Mas, à distância do olhar,
de tantas coisas estáveis,
ouço a vida cantando de novo.
E há uma orquestra, tocando cadenciada
Um ritmo existente nas coisas viventes
Pulsante ao amor do sol.

sábado, 30 de agosto de 2014

Floração






Foto: Goethea cauliflora



apesar do sol, que me tira da cama
me põe uma rotina
me lança sem amor
na saída de sua presença
das palavras breves
do suspiro pleno
nesta ausência tua que nos sabe

no corpo e no delírio
na voz e no vento
seja como o derradeiro inverno
desfolhando verde novo
o broto, e a espera rompe o crivo
saber que está perto
é o meu único alento


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Microcosmo

 
 


Foto:Umbela de cañaheja (Thapsia villosa)



Quando em vez fico cavando a origem dos sonhos,
o lugar que habita tão dentro de mim.
 
Procuro, fatigada e cansada
por não ter mais fim.
 
Mas então, quando longe da razão
chego a outro lugar, encontro-te enfim.
 
Onde outro Amado não mais traduz
senão as estrelas, todo o infinito, neste jardim. 

Juanito Laguna












Quando em viagem deixei a floresta úmida do litoral norte do Paraná e cruzei fronteira em Argentina, passando por suas montanhas de siete colores, pedras e aridez do caminho até adentrar a fronteira boliviana onde havia uma foto enquadrada de Evo Morales, como quem olha soberano, por sua feição indígena e com seus broches de comandante.  Num velho ônibus empoeirado, subimos uma daquelas consideradas a pior estrada do mundo, com um precipício à esquerda, a subida da cordilheira andina. Secura e ar empoeirado nas roupas coloridas das mamitas, llamas e construções de barro, cactos e pedras, até às alturas do Deserto de Sal em Uyuni. Uma paisagem de estranhamento pitoresco com seus flamingos, águas quentes e vulcões num chão de sal à perder-se de vista.
Lá onde, em outros tempos minerava-se ouro, um serrano caudal, o trem que levaria ao Lago Titicaca.
Através das águas salgadas do lago a 3800mts de altitude, chegaria à isla del sol que me acolheria por um ciclo de luas. Foi numa de suas praias desertas, onde só havia uma casa, uma escrivaninha onde dentro morava sozinho um exemplar espanhol amarelado da Odisséia de Homero, e a imensidão azul do lago mesclando-se com o céu. Lá onde um índio passava ao fim das tardes tocando seu saxofone a recolher a criação de ovelhas, nesta ilha conheci Juanito. Que poderia ser o personagem da música que me acompanhou por todo percurso, e enfim, se apresentar Juanito Laguna. Contou as histórias do lago e seus mistérios, as lendas e glórias. O ouro e o sol. O lago e as inundações. O povo seu massacre...
Mas agora de volta, Juanito soprado no vento da memória! Ele: Juanito Laguna. Meu amigo tecelão, a quem histórias eu dedico.

"Con el viento la caña silba una huella
y la huella se pierde, Juanito en ella.
Si Juanito Laguna le presta un sueño
es el canto que sube hasta su dueño.
Es un ojo en el aire, es carta y sobre:
Barrilete Laguna, Juanito Pobre.
Si Juanito Laguna sueña conmigo
volveré en barrilete para mi amigo."